NOVA ONDA PARA O MESMO HÁBITO NOCIVO
Do cigarro ao narguilé
Dr. Ronaldo Adib Kairalla, Pneumologista, e Dra. Rosely Glazer, Psicologa do Núcleo Avançado de Toarx do HSL
Existe atualmente uma nova onda, a do uso do narguilé (um cachimbo d’água utilizado para fumar) nas rodas sociais, bares e restaurantes da cidade e nas praias do litoral. Popularmente divulgado como inofensivo, o narguilé vem jovens a partir dos 12 anos com o mito de não causar dependência ou danos à saúde, incentivando o uso.
O cheiro agradável dos aromas frutados produzido pela mistura de suas diferentes essências, como maçã verde e mel, e pela falsa idéia de purificação da substancia pela água são justificativas dadas pelos jovens para a utilização do narguilé.
Além do nome, de origem árabe, também é chamado de arguilé e há diferenças regionais no formato e no funcionamento, mas o princípio comum é o fato de a fumaça passar pela água antes de chegar ao fumante.
Assim como a maconha era divulgada como uma erva do bem, o narguilé vem mascarando a atenção dos pais e dos próprios usuários com sua aparências charmosa que produz fumaça a partir de um lúdico vidro colorido de formas arredondadas.
Devido às cores vibrantes, o narguilé ilude os olhos e camufla seu real conteúdo: um fumo especial feito de tabaco, melaço de frutas ou aromatizantes. Geralmente consumido em grupo, esse hábito foi sendo introduzido no Brasil pela mídia e propagado pelos jovens.
Dados da Organização Mundial da Saúde comprovam que os fumantes de narguilé estão sujeitos às mesmas doenças do cigarro, com um risco adicional – o do tabagismo passivo produzido pela grande quantidade de fumaça.
O tabagismo é responsável por cerca de 90% dos quatro principais tipos de câncer de pulmão, aceitando-se hoje um aumento de 20 vezes no risco de desenvolvimento da doença nos fumantes em comparação aos não fumantes. As políticas de prevenção do câncer de pulmão são fundamentais, especialmente relacionadas ao tabagismo. Sua erradicação é nossa principal arma.
Portanto, o Programa Nacional de Controle do Tabagismo passa a incluir orientações sobre os problemas no uso do narguilé, realizando campanha nacional de esclarecimento sobre os riscos que esse hábito carrega. O objetivo é reduzir o consumo do tabaco, estimular e apoiar fumantes a deixarem o vício e os jovens a não começarem a fumar. O Núcleo Avançado do Tórax do Hospital Sírio Libanês faz parte desse programa, oferecendo tratamento aos tabagistas que queiram parar de fumar, baseado em consultas médicas e psicológicas, cujo objetivo é atacar a dependência química e comportamental do vício.
Associação Brasileira de Álcool e Drogas divulgou alguns dos malefícios e consequências do uso do narguilé como as doenças infecciosas que podem surgir a partir do compartilhamento de piteiras, entre elas herpes bucal e tuberculose. O contato com o fumo traz prejuízos ao pulmão iguais ao do cigarro como enfisema pulmonar, câncer de pulmão e doenças alérgicas, como asma e rinite. A fumaça quente inalada provoca micro queimaduras na pele do lábio, língua e nas cordas vocais, que também podem levar ao câncer.
O Instituto Nacional do Câncer alerta que o fumo passivo é a inalação por não-fumantes dos derivados do tabaco como cigarro, cigarro de palha, cigarro de cravo, cigarrilha, charuto, cachimbo e narguilé.
No narguilé, a presença da água em ebulição torna a fumaça mais úmida e agradável, fazendo com que aspire mais fumaça, inalando maior quantidade de toxinas e nicotina.
A Organização Mundial de Saúde alerta que a fumaça inalada em uma sessão de narguilé com duração de 80 minutos corresponde à inalação de 100 cigarros. Portanto, não é só o fumante que corre o risco. Seus efeitos se estendem às pessoas que ficam em volta da fumaça.
Pesquisas com crianças libanesas mostram que aquelas expostas à fumaça do narguilé em casa apresentavam mais propensão a ter problemas respiratórios – o mesmo nível observado em crianças expostas à fumaça de cigarros comuns.
Vale lembrar que não existem níveis seguros para o consumo de tabaco e que alguns jovens usam o narguilé para disfarçar o cheiro da maconha. O narguilé é uma nova ameaça, pela suposição que ao passar pela água, a fumaça do tabaco seria “filtrada”, causando menos perigo ao organismo. Esta crença é infundada, apesar de alguns fabricantes a rotularem como “livre de tabaco”. O quadro pode ser mais perigoso quando as pessoas substituem a água por bebida destilada e ao tabaco são misturadas outras drogas.
Boletim do NAT (Núcleo Avançado do Torax) janeiro/fevereiro 2009 - Hospital Sírio Libanês
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